A Madrinha Morte
Ilustrações por:
Ana Beatriz Mestre
Nº 11241
Eu escolhi ilustrar este conto porque, ao contrário dos contos mais contemporâneos, fala de um tema muitas vezes evitado com as crianças: a Morte. Este conto é uma bonita junção de uma lição de moral com um assunto dito "sério", real, pelo qual todos vamos ter que passar mais cedo ou mais tarde; uma junção entre a inocência e o macabro.
Adaptado da seguinte versão do conto dos Irmãos Grimm: A Madrinha Morte
Ana Beatriz Mestre
Nº 11241
Eu escolhi ilustrar este conto porque, ao contrário dos contos mais contemporâneos, fala de um tema muitas vezes evitado com as crianças: a Morte. Este conto é uma bonita junção de uma lição de moral com um assunto dito "sério", real, pelo qual todos vamos ter que passar mais cedo ou mais tarde; uma junção entre a inocência e o macabro.
Adaptado da seguinte versão do conto dos Irmãos Grimm: A Madrinha Morte
Um homem pobre teve doze crianças e teve que trabalhar dia e noite, a fim de que pudesse lhes dar, pelo menos, pão. Então, quando veio ao mundo o décimo terceiro, sem saber como socorrer a sua necessidade, foi para a grande estrada rural pedir auxílio ao primeiro que encontrasse. O primeiro que encontrou era Deus, que já sabia o que ele tinha no coração, e disse-lhe:
- Pobre homem, leve-me contigo, eu quero erguer a sua criança na pia batismal, cuidar dela e fazê-la feliz na Terra.
O homem perguntou:
- Quem é você?
- Eu sou Deus.
- Então não o quero para padrinho - disse o homem - Você dá tudo aos ricos e deixa os pobres com fome.
Assim disse o homem porque ele não sabia como, sabiamente, Deus distribui riqueza e pobreza. Então, ele virou as costas para o Senhor e continuou. Mais à frente, o Diabo deparou-se com ele e disse:
- O que procura? Se você quer me tomar como padrinho da sua criança, então eu quero cobri-la de ouro e opulência e dar a ela todos os prazeres mundanos.
O homem perguntou:
- Quem é você?
- Eu sou o Diabo.
- Então não o desejo como padrinho - disse o homem - você seduz e tenta as pessoas.
Ele continuou, até que as pernas secas da Morte se aproximaram dele e ela disse:
- Aceite-me como madrinha!
O homem perguntou:
- Quem é você?
- Eu sou a Morte, a que nivela tudo.
Então, disse o homem:
- Você é coerente, trata os ricos como os braços, sem diferença. Permito-lhe que seja a Madrinha do meu filho.
A morte respondeu:
- Eu vou fazer da sua criança rica e famosa, pois quem me tem como amiga não pode falhar.
Disse o homem:
- Este domingo é o batismo, esteja lá no devido momento.
A morte apareceu como tinha prometido a ele e assumiu as suas responsabilidades.
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| O Batismo da Criança |
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| A Morte dá a sua prenda ao seu Afilhado |
Depois de muitos anos, quando o menino ficou rapaz, a madrinha visitou seu afilhado e mandou que ele a acompanhasse. Ela conduziu-o até à floresta, mostrou-lhe uma erva que havia crescido, e disse:
- Agora, vais receber o teu presente de afilhado. Vou-te tornar um doutor famoso. Cada vez que fores chamado por um doente, vou aparecer para ti; se eu ficar à cabeceira do doente, então, vais poder dizer, corajosamente, que vais recuperar a saúde dele novamente, e ministrarás a ele esta erva, para que ele, de fato, recupere. Mas, se eu me postar à frente dos pés do doente, então, ele é meu, e você dirá que toda a ajuda é em vão, e que nenhum doutor no mundo poderia salvá-lo. Mas cuida-te para não usares a erva contra a minha vontade, poderia ser mau para ti.
Passado muito pouco tempo, o rapazinho tornou-se o médico mais famoso do mundo. Bastava ele examinar o doente, que ele logo sabia como ele estava, se ele iria ficar são, ou se iria morrer!
Assim falavam dele, e de todas as partes vinham pessoas que lhe traziam os doentes, e lhe davam tanto ouro que ele depressa se tornou um homem rico. Então, aconteceu que o rei adoeceu. O doutor foi chamado e deveria dizer se ele tinha possibilidades de sobreviver. Mas, quando ele chegou à cama, lá estava a morte aos pés do moribundo, e nenhuma erva havia crescido para ele.
- Se eu pudesse enganar a Morte, pelo menos, uma vez - pensou o doutor - é certo que ela vai levar a mal, mas, como sou seu afilhado, ela vai me desculpar. Vou ousar.
Então, ele pegou o doente e inverteu a sua posição, de modo a que a Morte ficasse à cabeceira. Em seguida, a Morte deu-lhe a erva e o rei recobrou os sentidos e ficou são novamente.
A morte veio, porém, ao doutor, fez-lhe uma cara feia de raiva, ameaçou-lhe de dedo erguido, e disse:
- Tu enganaste-me: desta vez vou te perdoar, porque tu és o meu afilhado, mas, se tu ousares fazer isto novamente, pego-te pelo colarinho, e levo embora tu mesmo.
Pouco tempo depois, a filha do rei contraiu uma grave doença. Era sua filha única, ele chorou dia e noite, até que seus olhos ficaram cegos, e mandou publicar que quem a salvasse da morte deveria tornar-se esposo dela e herdar a coroa.
O doutor, quando veio à cama da doente, viu a Morte aos pés dela. Ele devia ter se lembrado da advertência da sua madrinha, mas a beleza da princesa e a possibilidade de tornar-se seu cônjuge o seduziram tanto, que ele jogou todas as lembranças ao vento. Ele não viu a Morte a lançar-lhe raivosos olhares, com a mão erguida bem para o alto e o punho cerrado ameaçador; ele ergueu a doente e inverteu a sua posição na cama, de modo que os pés ficaram onde estava a cabeça e vice-versa. Então, ministrou-lhe a erva e, logo após, as maçãs do rosto dela se avermelharam, e a vida refloresceu nela novamente.
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| O Doutor cura a Princesa |
A Morte, como havia sido enganada pelo seu afilhado pela segunda vez, foi com largos passos ao médico e disse:
- Terminou para ti e, agora, tu és o próximo da fila!
Agarrou-o tão firmemente com a sua mão fria que ele não pôde resistir, e o conduziu para uma caverna subterrânea. Lá, ele viu, como queimava uma interminável fila de milhares e milhares de luzes, algumas maiores, outras médias e outras menores. A cada instante, algumas apagavam e outras flamejavam, de tal modo que as chamas, em mudança constante, brilhavam e saltavam pra lá e pra cá.
- Vê - disse a madrinha - Essas são as luzes das vidas humanas. As maiores são das crianças, as médias pertencem aos adultos em seus melhores anos, e as menores pertencem aos velhos. Porém, também as crianças e pessoas jovens têm, frequentemente, luzes pequenas.
- Mostra-me a luz da minha vida - disse o doutor, pensando que ela ainda seria bem grande.
A madrinha apontou para uma bem pequena, já no final, que ameaçava apagar, e disse:
- Vê, lá está.
- Oh, querida madrinha - disse o doutor, apavorado - Reacende-me uma nova, por minha causa, de forma a que eu possa desfrutar da minha vida, tornando-me rei e marido da bela princesa.
- Não posso - respondeu a Morte - primeiro, uma tem que apagar, para que uma nova possa arder.
- Então, ponha a velha sobre uma nova, de mesma intensidade, já que aquela está no fim - Pediu o doutor. A Morte agiu como se quisesse atender ao seu desejo e apanhou, ali perto, uma luz grande e fresca; mas, como quis vingar-se, tapou-a de propósito, e a luz pequena rodou e apagou. Imediatamente, o doutor foi sugado pelas profundezas da Terra, e foi parar, então, na mão da Morte.
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| O Doutor cai na mão da Morte |




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