E se vivêssemos a nossa vida inteira num só momento?
Esta é a história do Vasco que por motivos desconhecidos, teve de viver o que lhe restava da sua vida, em apenas um dia. Todas as ações que, ainda, lhe restava realizar, foram comprimidas em apenas minutos. O tempo passava mais lentamente, e Vasco viveu a sua vida toda.
Inspirado nos sonhos estranhos e completamente absurdos,
que às vezes a mente humana cria; e no lado mais repugnante das obras do artista
chinês Cao Hui. Através da fotografia e da sua edição (Photoshop), documentei alguns instantes da rotina
acelerada do Vasco e, ocasionalmente, os sentimentos da vítima.
Acordar / levantar
da cama:
Vasco,
sente-se cansado, pode-se mesmo dizer esgotado. Não consegue sentir mais nada,
exceto a enorme exaustão que tomou conta de si, do seu corpo e da sua alma.
Escovar os dentes:
Depois
de muito esforço, chega à casa-de-banho. Começa, então, a escovar os dentes.
(Ora, o Vasco tem 22 anos. A média de vida do homem é de 80 anos. Restam-lhe,
assim, 58 anos. O homem perde cerca de dois minutos a escovar os dentes, o Vasco
escova-os duas vezes ao dia, o que são quatro minutos. 58 anos são 21184 dias, sendo
assim, são 84 736 minutos (cerca de dois meses) a escovar os dentes, que ainda
faltavam ao Vasco.) Comprimem-se, portanto, os dois meses num flash.
Pequeno-almoço:
Após,
aquele mártir, Vasco encaminha-se para a cozinha. O seu pequeno-almoço
costumava ser 200 mililitros de leite, e um pão com doce (aproximadamente dez gramas). (Sendo
assim, 21184 dias de pequeno-almoço são cerca de 4237 litros de leite, 21184 pães
e sensivelmente, 212 quilogramas de doce). Começa, então, a tortura.
Ir trabalhar:
Quando,
finalmente, consegue arrastar-se para fora de casa Vasco, completamente derrotado,
tem, agora, de caminhar para o trabalho. Outrora, demorava dez minutos, (Deste
modo, retirando-se fins de semana, feriados, férias e anos de reforma o Vasco
teria ainda 9804 dias de trabalho para cumprir, o que leva a 90 804 minutos
de caminhada, apenas para chegar ao emprego), hoje caminhará dois meses prensados
em dez surreais minutos.
O fim:
Todas
as histórias têm um fim, mais ou menos explícito, com ou sem pontas soltas, terminam
sempre. A do Vasco não é exceção. Depois, de muito ser ‘triturado por esta maldição’,
não conseguiu suportá-la mais – sucumbiu ao pacífico sono eterno.
Saboreiem, lentamente, a vida.
Leonor Paulos.
nº 11189





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