Hoppípolla
Para este trabalho inspirei-me numa música da banda islandesa Sigur Rós, Hoppípolla. Apresento um texto e seis ilustrações (com pincel e tinta da china) que acompanham alguns momentos do mesmo assim como o link para a música inspiradora.
Texto:
Estava uma chuva torrencial, as gotas inundavam, violentamente, a paisagem. Pelas ruas mal iluminadas, arrastava-me, refugiava-me nas sombras entre os candeeiros, puxava o meu peso com as forças que me restavam. A calçada nunca tinha parecido tão desnivelada, uma rua que percorria frequentemente parecia agora irreconhecível, cada detalhe tinha agora outra cor, outra forma, outra textura. À medida que avançava, os passos deixavam de ser distinguíveis, o meu corpo curvava sobre mim, fundia-se com a chuva, com o nevoeiro. Com a visão ainda turva, continuei.
Na noite anterior tinha mergulhado os pés no sal do mar enquanto me deixava envolver pelo barulho das ondas que, ferozmente, trabalhavam a costa. Cantavam a mesma Ode dos búzios, solene, serena e imprevisível. O céu estava afogado em nuvens e mal se via a Lua. Ouviu-se o grito de uma mulher:
-Hoppípolla!- silenciou-se a noite, de novo. Deixei os sapatos para trás e corri o mais rápido possível.
Ao som da chuva sentia os vidros das garrafas de vinho, que os pescadores deixavam partidas no chão, a cravar nos meus pés. Comecei a sentir-me fraca, parei e deitei-me debaixo de umas escadas. Estava quase a adormecer quando ouvi uma música de fundo que me embalava e confortava...
Bum! Um tiro. Acordei, levantei-me e comecei a correr de novo para casa, tropecei e esmurrei os joelhos e os cotovelos. Não conseguia ver nada. A noite cegava-me. Ergui-me e olhei para trás. Nunca o deveria ter feito. Vi-te consumido pela raiva ao mundo com uma arma na mão. Não, não te vi, vi outro homem que não tu!
Continuei a correr. Vi uma luz branca esverdeada no fundo do bosque e corri para lá. Vieste atrás de mim com um andar pesado e lento como se soubesses que, dali, eu não ia sair. Corri pela vida, pelo amor, por tudo o que não queria perder. Corri por ti!
A certa altura deixei de sentir o teu respirar ofegante, deixei de ver a luz, deixei de sentir o vento, a chuva, os pés, o coração, a vida. A única coisa que persistia era aquela música que, desde sempre, nos unia na minha mente.
Ilustrações:
Trabalho: Maria Inês Santos Pimentel, nº 11199, Arte Multimédia,
Técnicas Narrativas.






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