A ideia inicial era fazer uma banda desenhada deste conto de Charles Perrault, "Peau d'Âne", mas achei mais interessante reinventa-lo na minha própria versão, que se passa nos tempos modernos. Ficou mais longo do que previ por isso fiz simplesmente prosa.





Pele de Burro

Tempo presente

- A Filipa está?
O ambiente no Lágrimas d’Ouro era calmo. O chão já estava limpo e a loiça lavada a secar. Matilda parecia ser a única pessoa lá dentro, limava as unhas com um ar enfadado. O costume depois de uma hora de almoço agitada. Mas Sabrina queria ver Filipa e embora já soubesse a resposta à sua pergunta voltou a questionar:
- Então? Está?
Sem nunca tirar os olhos da sua tarefa, a gerente responde simplesmente:
- Não.
Valeu a pena tentar, pensou a rapariga.
- Obrigada. Bom dia.
Preparava-se para sair quando a voz atrás de si a fez parar.
- Mas ela disse-me para te dizer - olhou-lhe finalmente nos olhos - que se tinha ido inscrever na tal coisa que vocês falaram.
Disto ela não estava à espera. O entusiasmo foi notório na sua voz:
- Ela foi inscrever-se no curso-
- Detalhes já não sei - interrompeu a mulher - Não sou pombo correio. Nem tenho boa memória. P’a próxima se quiseres mais detalhes pede-lhe que deixe uma carta. - voltou a focar-se na sua tarefa antes de parar e acrescentar - Vai-te lá embora. Não lhe dei o resto do dia livre p’a ela depois se vir queixar que quer outro pois não aproveitou este contigo.



Dois anos antes:

- Gostava de voltar atrás no tempo.
Disse-o tão baixinho e suavemente que acho que ele não a iria ouvir. Mas enganou-se. Vidro estilha-sou-se na parede e ela tremeu. Tinha sido assim nas últimas horas. Primeiro um barulho agudo e inesperado. Depois um silencio de morte. A ausência de som prolongou-se e só acabou quando ele começou a rir desalmadamente. Chorar era só o que ela fazia. Beber e rir era só o que ele conseguia. 
Nunca imaginaram estar nesta situação. Num dia tinham tudo e no outro nada. Maya morrera sem aviso. Fazia hoje uma semana mas nem Filipa nem o pai conseguiam ainda acreditar. Ou, pelo menos, aceitar.
Sempre fora muito chegada à mãe mas, agora, quando se tenta lembrar de uma boa memoria só se recorda das duras palavras que ambas trocaram numa discussão. A culpa era sua, e ela sabia. Mas agora era tarde. Já não pode pedir desculpa.
- Pai, é melhor parares de beber. Isso não vai trazer a mãe de volta.
Falar já lhe era difícil. Sem se preocupar em lavar a cara coberta de lágrimas, levantou-se e foi para o seu quarto.
Só se apercebeu que o pai vinha atrás quando se virou para fechar a porta.
Ouviam-se berros e objetos a cair no chão. Ela batia-lhe, ele empurrava-a. Se achara que tinha esgotado a sua quota semanal de lágrimas apercebera-se que estava errada. E acabou como começou - repentinamente. Só notou que tinha acertado na cabeça do homem com o seu candeeiro quando o atirou, inconsciente, para o chão com a testa ensanguentada. Não durou muito, a cena, mas se lhe perguntassem responderia que tinha estado horas a ser fisicamente maltratada pelo pai. Se tivesse congelado de medo sabia que não teriam saído dali tão cedo.
Mas nada disso importava. Pegou na carteira, fotografia e casaco de pelo da mãe e nas chaves do carro. Não iria voltar mas de certo que pensaria em algo depois de se fazer à estrada. 



Um ano e meio depois

- E tens experiência como empregada de mesa?
A sua hesitação era resposta o suficiente, e viu-o na cara de Matilda, mas não deixou de acrescentar:
- Bom, não... Mas aprendo depressa! E sou rápida, não me atrapalho a falar, tenho uma memoria excelente e-
- Já ouvi o suficiente.
Já tinha ido a entrevistas suficientes para saber o que esse comentário significava. Depois de fugir de casa para uma cidade bem longe da sua, largou o carro e pôs-se num comboio para outra cidade ainda mais distante. Tinha dinheiro suficiente na sua posse para arrendar um quarto durante uns meses. Tinha arranjado um emprego como passeadora de cães e outro como empregada de uma loja de flores mas ambos não duraram.
Antes da fuga, nunca pensara calmamente do seu futuro. Na altura, bastava pedir que o pai tudo lhe providenciaria. Embora sempre tenha tido um gosto e talento pelo desenho. Se não estivesse nesta situação estaria, provavelmente, a estudar.
Depois de uma quantia razoável de entrevistas de emprego apercebera-se de que talvez o seu aspeto fosse a principal razão de muitas das recusas que tivera que enfrentar. Tinha sempre a mesma aparência cansada, como de quem passa muitas noites em branco. O cabelo estava sempre despenteado e por lavar. E usava sempre o mesmo casaco, o que pertencera à mãe. Era de pelo cinzento e tinha aspeto velho. Embora não causasse muito boa impressão recusava-se a não leva-lo. Era o seu amuleto da sorte.
Antes de poder despedir-se:
- Estás contratada. Fátima, era?
- Na verdade-
- Pele de burro p’á patroa, então. Não tenho boa memória. Decorar o teu nome iria levar demasiado tempo, Francisca.
Foram-lhe explicados horários, etiquetas, como trabalhar com as máquinas e os nomes de tudo no menu.
Não era o seu trabalho de sonho mas era um trabalho. Se conseguisse mantê-lo pelo menos até conseguir algo melhor já estaria muito grata.
Dentro de si, uma chama de esperança se acendeu. Iria conseguir. Iria fazer a mãe orgulhar-se de si, onde quer que ela esteja. 

Uma semana passou mas ia jurar que tinha trabalhado naquele café o mês inteiro. Queria mesmo aproveitar a oportunidade e, como tal, não podia dar-se ao luxo de falhar. Nunca tinha tido um trabalho tão exigente nem uma patroa tão dura. Cada vez dormia menos. Passava as horas de almoço a desenhar no seu caderninho. Ás vezes tão entretida que se esquecia de comer. A verdade é que se continuasse assim iria ter um esgotamento.
Era uma empregada tão eficaz que os cliente habituais e os lojistas do bairro já a conheciam. O problema era o nome pela qual a conheciam - pele de burro. Da primeira vez que a patroa lho chamou nem se importou mas depois de ouvir a sua alcunha horas a fio, dia após dia, por quem quer que fosse já se começava a cansar. Nem percebia muito bem de onde vinha o nome. Seria por causa do seu casaco de pelo cinzento ou era um insulto explicito á sua personalidade? Ou ambos? Não lhe importava, desde que recebesse o dinheiro prometido no final do mês.



Um mês depois

- Tenho o dia de hoje livre?
- Sim. Não queres?
- Não, é só que-
- Então isso é um não?
- Não! Quero dizer, quero o dia livre! - apressou-se a rapariga a afirmar. E ainda antes de sair pela porta por onde entrou, acrescentou murmurando - Podia ter-me perguntado isso ontem...
- Alguma coisa a acrescentar?
- Obrigada.


Normalmente só tinha um dia de fim-de-semana livre e o tal era passado em casa a dormir ou a ver televisão. Decidiu não gastar a generosidade que lhe fora oferecida a fazer nenhuma dessas coisas. Aproveitou ter-se levantado cedo para passear no parque da cidade. Era um belo dia de sol mas não estava calor o suficiente para se desfazer do seu casaco de pelo. Tirou o seu caderninho da mala e começou a desenhar a paisagem.
- És a rapariga do Lágrimas d’Ouro, não és?
Quando se virou na direção da voz viu uma rapariga de cabelo castanho claro a seu lado. Parecia ter a sua idade. Aparentemente a rapariga reconhecera-a e Filipa também não achava a sua cara estranha. Provavelmente não era uma cliente tão habitual como aqueles que ela até já reconhece a voz.
- Sim, sou eu.
- Bem me parecia. Adoro os teus bolos. Sou a Sabrina. Posso me sentar?
Ainda estava a processar o facto de estar a falar com alguém fora do seu local de trabalho quando a rapariga se sentou, não esperando resposta à sua pergunta.
- Woah! Foste tu que desenhaste? Está mesmo bom!
Diz qualquer coisa!, pensou.
- Obrigada.
- De nada. Então hoje tiveste o dia livre...
Quer saber o meu nome. Não faria mal nenhum dizer-lho mas decidiu não fazê-lo, por agora.
- Pele de burro.
- O que? Oh, percebo. Desculpa. Se quiseres que me vá embora posso-
- Não me importo ter companhia.
Sabrina estava confusa. Achou que a “pele de burro” estava desconfiada e desconfortável com a sua presença, visto que até agora só tinha recebido em troca das suas perguntas e comentários respostas de uma ou duas palavras. Mas se calhar era só uma pessoa tímida com pouco para dizer. No entanto, tinha ar de quem precisava de uma amiga. E já não era a primeira vez que Sabrina tinha ponderado começar conversa...
O dia passou lentamente, mais do que o normal, para satisfação das raparigas. Mas acabou por chegar ao fim. Estavam sentadas no telhado da habitação de Filipa. Esta desenhava a lua e as estrelas enquanto Sabrina prestava atenção.
- Está a ficar tarde. É melhor ir andando.
- Espera estou quase a terminar.
Uns retoques aqui e ali com o lápis e o desenho estava pronto.
- Feito. - Arrancou os desenhos que fizera de manha e agora e deu-os a Sabrina. - Obrigada por passares o dia comigo.
- Obrigada digo eu por me deixares chatear-te na tua folga e por me ofereceres estes desenhos. Estão lindos. Devias ter aulas, sabias?
Não queria estragar o momento ao dizer que ainda não tinha dinheiro o suficiente para tal, por isso, respondeu simplesmente:
- Vou pensar nisso.



Cinco meses depois

Desde aquele dia de folga que pele de burro não se sentia a arrastar pelo chão sem motivação de trabalhar se não pelo dinheiro. Agora, sempre que ia para o café esperava ver a sua cliente preferida e só pensar nisso fazia-a andar mais depressa até ao seu emprego. Nunca pensou que ter uma amiga lhe podia levantar tanto o espírito. Já não se imaginava a viver outra vez na solidão.
Partilharam tudo uma com a outra. Mas nada fez a Sabrina mais feliz do que, finalmente ,saber o nome da empregada de mesa.

Mas hoje algo não estava bem. Sabrina ainda não tinha posto os pés no estabelecimento. Já sabiam o horário uma da outra de cor e o facto de a sua amiga ainda não ter aparecido para levar uma fatia do bolo que tanto gosta para as suas aulas estava a preocupar pele de burro.
Ligou-lhe. Nada. Ligou-lhe outra vez. Nada. Algo se passa.



Duas semanas depois

- Posso encomendar um bolo? Para hoje?
Esta senhora estava com sorte. Hoje o ambiente estava calmo no Lágrimas d’Ouro. Depois de discutirem todos os detalhes da encomenda pele de burro pôs as mãos á obra. Normalmente não recebia encomendas de bolos para o próprio dia. Alguém que gosta de fazer as coisas à ultima da hora, supôs.
A sua preocupação com a amiga ainda era tal que nem reparou quando um dos seus anéis caiu na taça da massa. 

Já não aguentava. Talvez Sabrina a estivesse a ignorar, mas porque faria isso? Já tinha perdido a conta das chamadas e mensagens que enviara mas sabia quantas respostas tinha recebido em troca: zero.
Habituara-se de tal maneira a ver a outra rapariga todos os dias que agora agia como se dois dias fossem dois anos. 
- Estou a tornar-me dependente. Outra vez. Se não acabar com isto já vou sofrer tudo o que sofri com a minha mãe de novo. - confessou para os seus botões.
Foi para casa quando o seu turno acabou. Não lhe apetecia tomar banho nem comer. Tentava não pensar no pior. Preferia pôr a hipótese de estar a ser ignorada do que ponderar situações mais tenebrosas. Mas não podia evita-lo. 
Era já madrugada. Lá fora só se ouviam os primeiros chilrear de pássaros. Cá dentro só se ouviam os soluços abafados pela almofada branca e macia.

- Isto deve ser teu.
Um dos seus anéis foi posto no balcão ao seu lado mas não foi isso que a fez sair da zona interdita a clientes para abraçar Sabrina.
- Estás aqui! Estás aqui!
Não pensou no quão alto falava, chorava e ria. Só pensava na amiga e no facto de ela estar ali consigo.
Qualquer pessoa no estabelecimento devia estar a achar a cena bastante dramática. Mas nenhuma das duas se importou com isso.
- Se continuares a chorar vais-me fazer chorar também. Eu estou aqui calma.
Quando finalmente se largaram, pele de burro caiu em si. Tinha os olhos e as faces vermelhas e molhadas.
- Onde andaste? Liguei tantas vezes...
- Não te queria preocupar.
- Acho que acabaste por me preocupar mais do que se me tivesses dito a verdade.
Sabrina tinha estado doente. Gravemente doente. Sempre soube que acabaria por recuperar, ou pelo menos sempre tivera essa esperança. Mas ela conhece pele de burro. Conhece a sua história e as suas inseguranças. A sua tendência para se isolar com medo de perder as pessoas importantes para si, como acontecera com a sua mãe. Informa-la sobre o seu estado de saúde só lhe iria causar insónias desnecessárias. Mas agora percebia que o que tentara evitar acabou por acontecer na mesma.
- E por isso, ontem pedi á minha mãe que viesse aqui buscar-me um dos teus bolos deliciosos porque achava mesmo que ia ser o ultimo. Mas, hoje de manha, quando acordei, senti-me como nova. Os médicos não sabem explicar como alguém que passou este tempo todo de cama consegue hoje sair á rua mas eu acho que sei porquê.
- Porquê?
- Porque o teu bolo era ótimo! Óbvio!
- Ainda estás a alucinar. Volta para casa.
- Estava só a aliviar o ambiente. Mas, todo este tempo parada fez-me pensar no quão curta, imprevisível e frágil é a vida. Devias ultrapassar e aceitar o teu passado e seguir em frente. Não quero que te contentes com o aceitável. Não quero ser a tua única amiga. Não quero que desperdices o teu talento pelo desenho. Quero que sejas feliz, rodeada de pessoas que te merecem e a fazeres o que gostas.
Foi preciso Matilda chegar para as afastar. Ela já tinha pouca paciência para pirosices mas hoje estava especialmente mal disposta.
Não importava. Pele de burro estava particularmente bem humorada.
Reparou então no anel, há muito esquecido. Tinha de arranjar um semelhante para Sabrina...


Presente

Decidiu esperar Filipa no apartamento partilhado por ambas. Espantou-se por a luz, ao entrar, já estar acesa.
- Já chegaste. - afirmou enquanto se descalçava à entrada. Lar doce lar.
- Tive que vir para casa resolver umas coisas no computador esqueci-me de te ligar. Desculpa.
Não era uma casa grande. As paredes estavam pintadas de branco e amarelo. Tinham pouca mobília mas os itens preferidos das raparigas eram os quadros já pendurados que a “futura artista” fizera.
- Soube que seguiste o meu conselho. Correu tudo bem na inscrição?
- Sim. Tinhas razão. Sobre tudo. Não era como se eu estivesse contentada com aquela vida. Simplesmente queria mais estabilidade e tinha receio de avançar.
- Eu sei. Fico muito contente por ti.
Celebraram com pizza e noite de cinema. 
Decidiram que, daí em diante, iriam assegurar um bom futuro sem nunca deixar de viver o presente.
Não queriam um final mas, sim, uma vida feliz.




Catarina Marques
nº. 11211



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