- o casamento -

- o casamento -

  Era meados de Junho, numa tarde quente quando o Velho Pina, sentado num pedregulho a olhar o tempo, abre uma carta. Um fenómeno raro. Aproveitou-o bem, não era todos os dias que se abria uma. Primeiro examinou-a, tinha um carimbo dos correios e era certamente para ele. Destinatário claro, João Pina, morda completa, naquele Alentejo de luz forte e, os remetentes eram os seus amigos Lurdes e Jacinto Coelho. Depois, assaltou-lhe uma dúvida, “Rasgo o envelope por cima ou de lado?”. Abrir cartas não era o seu forte. O Velho Pina era um homem simples, levou a sua vida a trabalhar por conta própria e como hobby tocava concertina. “Bem, vai por cima.” Lá dentro o convite para o casamento da filha dos amigos. No espaço para o traje apenas um risco sobre a sugestão e uma nota interessante: "Não se esqueça da concertina…".Conhecedor da amizade que motivou o convite e sabendo o quanto era apreciada a música da sua concertina, a resposta foi fácil - “Sim amigos, podem contar comigo e o burro…claro!” 

  
  Chegada a data, o Velho Pina, iniciou os preparos para estar presente na cerimónia religiosa, bem como na boda que os pais da noiva ofereceram. Tirou o fato preto da naftalina, observou-lhe os vincos e as zonas gastas pelos mais de 30 anos de idade, mas ainda muito apresentável. A camisa, branca e rígida da goma, completava o conjunto onde a gravata aguardava a entrada em cena apenas na cerimónia. Os sapatos pretos brilhavam como novos depois de uma valente engraxadela. Por fim, mas não menos importante, o transporte, assegurado pelo seu burro. O Sr. João tratava-o assim, só por burro, como não tinha mais nenhum, nunca teve que lhe dar outro nome. Engatou-o na carroça que, por pirraça aos seus conterrâneos, pintou de verde, cor do seu clube. Sempre gostou de remar contra a maré, quando todos eram do Benfica ele torcia pelo Sporting. Certificou-se, uma ultima vez, que a concertina estava na caixa e esta na carroça. 


  Assim, iniciou a viagem. Não tardou até deixar para trás as casinhas brancas da vila, percorrendo os caminhos entre as vinhas vedadas de silvas. Cruzou o pinhal que tanto refresca no verão, como a sua lenha aquece no inverno, sempre os extremos naquela terra - uns com tanto e tantos sem nada…mas até estes casam, e nesse dia são os reis da festa.
  
  A cerimónia foi numa pequena ermida onde o padre desfiou as costumeiras frases da ocasião, o noivo, que sim a aceitava por esposa e ela idem que o aceitava a ele e prometiam amar-se para sempre, na saúde e na doença, enfim estavam casados. Deram-se os cumprimentos da praxe, os vivas aos noivos e seguiram todos para a boda no monte.


  Este casamento foi de um só dia, o possível para a gente simples e pobre. Os casamentos  da província de 3 dias são os de outras pessoas, com outras posses. A boda foi feita como só os alentejanos sabem fazer, com pouco faz-se muito. A magia das ervas aromáticas, do azeite, do pão e claro, do vinho, encheram os estômagos e aqueceram a alma. 
  Após o repasto, seguiu-se o bailarico abrilhantado pela concertina do Velho Pina que era a atração principal, a que se juntaram as vozes ora agudas das mulheres ora graves dos homens. Dançou-se e bebeu-se até escurecer. Porém, ainda havia que dar a ceia aos convidados, mas era notória a diferença entre a quantidade de convidados previstos e a porção de comida existente. 

  
  Aquecidos pelo vinho, que continuava a correr, os convivas não se aprontavam a sair. 
Fez-se noite e tiveram que acender os candeeiros a petróleo, sim porque na altura ainda não havia electricidade. A luz iluminava as travessas vazias bem como a vergonha dos hospedeiros. A mãe da noiva, em desespero, encontra no fundo da arca um chouriço que rapidamente assa, depois entra na sala pousando o prato e diz: “Bem, se alguém ainda quiser comer mais qualquer coisinha, deixo o chouriço assado, o pão está no taleigo em cima da mesa…”



  
  A luz do candeeiro iluminava agora o embaraço dos convidados em se atirarem ao chouriço que claramente não chegava para todos. Colocados junto ao candeeiro, suspiravam soltando frases feitas: “...que bela festa!..”; “A noiva estava linda!” e suspiravam, a cada suspiro a luz do candeeiro tremeluzia... por fim um suspiro mais profundo apagou a luz e a vergonha dos convidados, que incentivados pela escuridão repentina e libertadora, se precipitaram na direção do prato. O Velho Pina ouviu um estrondo equiparável ao de uma trovoada e, também ele pensou que depois de gastar os foles a arfar a concertina, um pouco do chouriço também era merecido... lançando-se ao prato. Por espanto e surpresa, debaixo da escuridão, procurou, mas do chouriço nem rasto e no prato contou apenas catorze mãos e um pé... vazios na mesma busca.



  Com o retorno da luz, constatou-se que do chouriço apenas haviam duas manchas de gordura avermelhadas do pingo solto, reveladoras do vencedor. Confirmando, assim, que o pedaço está guardado para quem o alcança, e não para quem o merece. A festa não esmoreceu e foi a altas horas que o Velho Pina e o burro voltaram para a vila. 

- FIM -






Este conto é um bom exemplo de storytelling. É uma história contada verbalmente de geração em geração. O meu avô contava ao meu pai, que por sua vez me contou e eu conto, agora, a vocês por meio da narrativa textual e da ilustração. 
Como quase todos os contos, senão todos, têm uma “moral da história”, este não foge à regra. Mostra, então, que a recompensa nem sempre é atribuída a quem se esforça mais, mas sim quem a alcança primeiro. 


Conto e ilustrações realizados por:
Margarida Dordio nº11171

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