O íntimo teatro
O íntimo teatro estava vazio, um
aroma de pó em madeira velha de carvalho preenchia a sala, e a audiência de ar
aguardava ansiosamente. Os maestros, ligeiramente iluminados pela luz que
passava pela persiana, sabiam de todos estes factos. Um suave piano interrompeu
o duro silêncio. Era uma composição divina que podia ser ouvida horas a fio e,
com ela, os maestros começaram-se a mover lentamente. Tecla a tecla, estes
igualavam a peça e o parceiro. Certamente era uma composição divina, mas não
era perfeita, era preciso um violino para a melhorar. Começou a tocar com uma subtileza
extrema, o antes tão imponente piano era agora apenas um acompanhamento para o
violino, e os alicerces de madeira tremiam e rangiam com energia. Os maestros
controlavam o ritmo e os volumes dos instrumentos, nunca antes haviam estado
tão coordenados, e a audiência de calor e fragrância estava a adorar. O
andamento começou a acelerar, um crescendo a acentuar-se. O piano tocava com urgência,
o violino estava sem fôlego e os maestros também, mas ainda faltava muito para
terminar. A peça estava intensa mas ainda não intensa o suficiente. Uma bateria
rufou em cena e uma orquestra de brilho a bronze juntou-se a ela, agora a
audiência estava ao rubro. Os maestros mexiam-se freneticamente para tornar
tudo perfeito. Não o era. De facto era descoordenado, desajeitado, o que
denominaria de ruído e não de música. Mas isso não importava, o que importava
era o prazer dos maestros, e eles estavam em êxtase. A música tentava
acompanhar os movimentos dos maestros e, de repente, acabou, com duas cadências
interrompidas, um crescendo constante e um final bombástico. O odor a suor e
óleos corporais preenchia o aplauso silencioso da audiência. Parecia terminado,
até que o piano recomeçou a tocar. Tocava a mesma composição divina do início.
Porém, agora, era finalmente perfeita. Os maestros olharam-se nos olhos,
sorriram, e adormeceram ao ritmo da última nota do piano. A peça tinha
terminado.



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