A Cadeira
Para realizar este trabalho tive como base os vários aspetos que devem estar presentes numa narrativa: desde ao espaço onde esta se realiza ao tipo de personagens que a constituem. Para tentar criar esta nova narrativa literária, tive como inspiração várias músicas, todas elas bastante diferentes umas das outras. Nesta narrativa seguimos um dia e mais um bocadinho da vida da personagem principal e todas as suas peculiaridades.
Aqui está:
A cadeira
O som da confusão citadina adormece. A minha mente não podia estar mais acordada. Lá está ele sentado naquela cadeira. Aquela cadeira habita os meus pesadelos tão ordinários na minha vida monotonamente extraordinária que já os considero como velhos amigos, aqueles amigos que se pensar bem, agora seria impossível de os ter na minha vida, mas como nos conhecemos á tanto tempo as dinâmicas acabam por resultar, isso ou não quero admitir que talvez serão os únicos que ficaram tempo suficiente para os considerar como tal.
Se olhar bem consigo ver o número de vezes que a cadeira já foi pintada na tentativa de apagar a memória do pinho que outrora fora. Pergunto-me se será a cadeira que habita os meus pesadelos ou a quem ela pertence. Fico pela primeira opção não querendo dar mais trabalho ao meu psicanalista. Deixo-o onde o encontrei não querendo perturbar as poucas horas que tem para descansar. Penso no pequeno papel que á cerca de três invernos atrás encontrei perto da porta de sua casa, esse papel que guarda o horário do seu trabalho e dita a minha vida.
Hoje sendo terça-feira, teve dois turnos com apenas quarenta e cinco minutos de almoço, o que fez com que eu acordasse da visita diária aos meus velhos amigos antes do cantar dos pássaros que antes da chegada do meu vizinho eram a minha forma predilecta de acordar. Esperei que o som de água e do velho rádio que comprou pouco depois da sua mudança começassem para poder começar o meu dia. Como já o faço desde os meus dez anos notei os estragos da visita dos meus amigos: mais um candeeiro partido e mais uns pedaços de papel de parede arrancados da parede oposta á única janela com varanda na minha humilde residência, onde a tranca foi fechada com cimento para impossibilitar a minha passagem para a mesma, mais uma das ideias brilhantes do meu psicanalista e psiquiatra. Destranquei a porta do meu quarto e tento começar o dia como qualquer outro individuo tendo como música de fundo uma rádio que nunca me despertou o interesse, mas agora posso dizer que é a minha preferida pois é a que ele decidiu ouvir nesta madrugada. Tirei a tranca á prova de crianças das gavetas que me dão acesso a qualquer objecto de metal, cortante e afiado que possuo para poder tratar do pequeno-almoço que escolhi como o meu único alimento até á hora de almoço. É sempre o mesmo, mas é assim que mantenho a regularidade e lucidez da minha mente, é assim que a mantenho adormecida.
Olhei em redor, o ambiente conhecido da sala que partilha espaço com a cozinha trás algo de calmante ao meu corpo e com isso juntei mais um elemento á minha lista mental de aspectos que me permitem manter lúcida. Tentei focar-me no que fiz durante a visita dos meus amigos e aponto tudo o que me consigo lembrar - sim mais uns dos pedidos dos sujeitos que me impedem de ser realmente eu.
De repente, apercebi-me de movimento do outro lado das janelas e lá estava ele a preparar-se para sair para mais um dia no trabalho insuportável que só não se despede pois pagam bem - palavras dele, que ouvi dizer ao telemóvel, não sei com quem transmitiu esta informação, mas sinceramente essa era a última questão que queria que me fosse respondida. Sempre que fala ao telemóvel gosto de pensar que é a sua forma de falar comigo e que por causa da sua maneira discreta e tímida que o impossibilita de comunicar directamente comigo aproxima-se da janela para eu ter a capacidade de o ouvir.
Olhei para o relógio antigo já lascado nas pontas onde o seis e o doze se encontram, precisamente situado perpendicularmente á minha pequena mesa de jantar onde estava a escrever, meia hora tinha passado o que me dizia que ele estava a chegar ao seu local de trabalho e estava na hora de sair de casa para ir passar o dia com médicos a perguntarem-me as mesmas questões desde os meus dez anos e eu sempre a dar as mesmas respostas. Das poucas acções de empatia que os meus progenitores tiveram para comigo esta foi uma delas e talvez a pior delas todas, passar os meus dias dormente num local com pessoas que podiam cuidar de mim - algo que eles nunca tiveram paciência para fazer - para eles por o terem feito mereciam o prémio de melhores pais da década, para mim, só mais uma razão por não gasto nem uma lágrima quando os encontrei já sem vida no chão da sala da casa que até então era onde os meus maiores pesadelos viviam.
Passaram-se horas de dormência, olho para o pequeno relógio quase uma réplica do que se encontra na parede da minha sala situado no meu braço direito, dois minutos. Estes dois minutos quebraram a minha rotina na melhor maneira possível. Ele encontrava-se ao lado da porta da minha casa com algo na sua mão que quando entrei na sua linha de visão percebi era algo que deveria estar na minha caixa do correio. Foi a primeira vez que ouvi a sua voz direccionada directamente para mim e desde aí que a minha mente ficou incansável.
Encontro-me novamente na janela esquecendo o que ia fazer na cozinha antes de me relembrar do melhor momento da minha vida que ocorreu apenas a alguns momentos e lá ele está, naquela cadeira que me persegue. No meio desta corrida mental que me encontro percebo que o horário ritual que é a minha vida tem de continuar e vou numa névoa de volta para os meus queridos amigos.
Acordo deixando-os para trás com a mesma sensação que só tive uma vez antes, porém dessa vez deveria ter derramado o dobro das lágrimas que derramei. Não gosto da sensação e tento voltar á rotina do costume para trazer alguma calma á minha mente, vou para destrancar a porta, mas já se encontra encostada á parede, vou para observar os estragos contudo, quando olho á minha volta mais vale tentar perceber se algo sobreviveu a visita desta noite: todo o papel das paredes encontra-se no chão, algo vermelho percorria as paredes, o chão e qualquer outra superfície e o aroma quase insuportável a ferro que está dissolvido no ar. Ando até a sala e a imagem de terror é idêntica: gavetas abertas que deveriam estar fechadas, janelas partidas, relógio sem ponteiros e o mesmo aroma que se está a tornar como outro componente do ar que me enche nos pulmões. De repente o som estridente de buzinas entra pelos meus ouvidos o que me faz olhar pela janela partida algo que não deveria ter feito pois vejo uma maca a sair da casa do lado e algo que pensava nunca ter tido dói-me no meu peito e só aí que redireciono o meu olhar para a janela em frente. O encarnado contínua e os estragos também, consigo perceber varias mãos feitas com a tinta que nunca o deveria ter sido e um telemóvel perto da porta.
O som da confusão citadina não podia estar mais elevado. A minha mente não podia estar mais dormente. Lá está ela, aquela cadeira que passou a ser o meu único pesadelo, os meus amigos continuam presentes, eu é que deixei de estar.
Mariana Costa Arte Multimédia Aluno nº11238
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