A Morte Melancólica do Rapaz Ostra
O livro "A Morte Melancólica do Rapaz Ostra e Outras Estórias" de Tim Burton, sempre foi um dos meus livros de contos preferidos. Nele são retratadas várias crianças tão estranhas e desajustadas que talvez se devessem antes chamar criaturas. Mas o sinistro neste livro não é a aparência dessas crianças, mas sim a crueldade com que são tratadas pelos demais.
De entre os vários contos, escolhi ilustrar "A Morte do Rapaz Ostra" visto que foi o que mais me chocou e por ser, na minha opinião, o mais macabro.
A MORTE MELANCÓLICA DO RAPAZ OSTRA
(adaptação)
Nas dunas, pediu-lhe casamento,
À beira-mar se casaram.
Na ilha de Capri celebraram
esse tão grande momento.
À ceia jantaram um prato sobejo:
uma bela caldeirada de peixe e marisco.
E, enquanto ele saboreava o petisco,
no seu coração ela pediu um desejo.
O seu desejo tornou-se realidade: teve um bebé.
Mas seria um ser humano?
Pois é,
na verdade,
tinha dez dedos nos pés e nas mãos,
tinha visão e circulação.
Podia ouvir, podia sentir,
mas seria normal?
Isso não.
Este nascimento, este cancro, esta praga
foi o princípio e o fim de toda uma saga.
Ela zangou-se com o doutor:
"Esta criança não é minha.
Cheira a maresia, a salmoura e a tainha."
"Olhe que tem sorte, ainda a semana passada
tratei de uma miúda com crista e rabo de pescada.
Se o seu filho é meio ostra
não me venha acusar...
...já pensou por acaso
num casinha à beira-mar?"
Sem saber que lhe chamar
chamaram-lhe Alves,
ou, às vezes,
"aquela coisa da espécie dos bivalves."
Toda a gente se perguntava, mas ninguém sabia
quando é que da concha o Rapaz Ostra saía.
"Olha, querido, disse ela,
isto não é para ter piada,
mas eu já não pesco nada
e acho que é do nosso filho.
Não gosto de o dizer, pois sou a mulher que te ama,
mas tu culpas o nosso filho pelos teus problemas na cama."
Ele bem se aplicou, com muito denodo;
tentou salvas e unguentos
que lhe faziam comichões,
tintura de iodo,
mezinhas e poções.
Coçou-se e sangrou e esmifrou-se todo.
Até que o médico diagnosticou:
"Eu não sei de ciência,
mas a cura do seu problema pode ser o que o causou.
Dizem que comer ostras aumenta a potência:
talvez se comer a criança
fique cheio de pujança."
Ele foi pela calada,
estava escuro como breu.
Tinha a testa suada
e nos lábios - uma mentira ensaiada:
"Filho, és feliz? Não me quero intrometer,
mas nunca sonhaste com o Céu?
Nunca quiseste morrer?"
Alves pestanejou duas vezes
mas não ripostou.
O pai tacteou o punhal
e a sua gravata aliviou.
Pegando o filho ao colo,
Alves pingou-lhe a lapela.
Levando a concha aos lábios,
despejou-o pela goela.
Ilustração feita com gouache e aguarelas.
Dimensões: 35cm x 50cm

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