Cogumelos na Cidade
Para este trabalho decidi fazer uma ilustração de um dos contos que o professor nos aconselhou a ler. Escolhi o conto "Cogumelos na Cidade", de Italo Calvino, pois achei interessante realizar uma adaptação gráfica deste tema (cogumelos). Queria fazer uma edição como se tratasse de um livro, portanto fiz a capa e algumas ilustrações para acompanharem o texto. Todos os desenhos foram realizados em computador, através do Photoshop.
Gostei do resultado final, superou as minhas espectativas, pois nunca tinha feito nenhum trabalho que incluísse desenho gráfico.
O vento, vindo de longe para a cidade, oferece a ela dons insólitos, dos quais se dão conta somente poucas almas sensíveis, como quem sofre de febre de feno e espirra por causa do pólen das flores de outras terras.
Certo dia, num sulco de canteiro de uma avenida, apareceu, sabe-se lá de onde, uma rajada de esporos, e ali germinaram cogumelos. Ninguém se deu conta disso, exceto o carregador Marcovaldo, que todas as manhãs pegava o bonde exatamente ali.
Esse Marcovaldo tinha um olho pouco adequado para a vida da cidade: avisos, semáforos, letreiros luminosos, cartazes, por mais estudados que fossem para atrair a atenção, jamais detinham seu olhar, que parecia perder-se nas areias do deserto. Já uma folha amarelando num ramo, uma pena que se deixasse prender numa telha, não lhe escapavam nunca: não havia mosca no dorso de um cavalo, buraco de cupim numa mesa, casca de figos e desfazendo na calçada que Marcovaldo não observasse e comentasse, descobrindo as mudanças da estação, seus desejos mais íntimos e as misérias de sua existência.
Assim, certa manhã, esperando o bonde que o levava à empresa SBAV, onde suava a camisa, notou algo de estranho junto à parada, na nesga de terra estéril e cheia de crostas que acompanha a arborização da alameda: em determinados pontos, ao pé das árvores, parecia que inchavam os monturos que lá e cá se abriam e deixavam aflorar corpos subterrâneos arredondados. Inclinou-se para amarrar o sapato e observou melhor : eram cogumelos, cogumelos de verdade, que estavam rompendo a terra bem no coração da cidade! Marcovaldo teve a impressão de que o mundo cinzento e miserável que o circundava se tornava de repente generoso em riquezas escondidas e que ainda se podia esperar alguma coisa da vida, além das horas pagas pelo salário contratual, de compensação de perdas, do salário-família e da carestia.
No trabalho, ficou mais distraído que de costume; pensava que enquanto estava ali descarregando pacotes e caixas, no escuro da terra os cogumelos silenciosos, lentos, de cuja existência só ele sabia, amadureciam a polpa porosa, assimilavam seivas subterrâneas, rompiam a crosta dos torrões. "Bastaria uma noite de chuva", disse consigo mesmo, " e estariam no ponto de serem colhidos". E não via a hora de comunicar a descoberta à mulher e aos seis filhos.
- Ouçam o que eu tenho para contar! - anunciou durante o magro jantar. - Dentro de uma semana vamos comer cogumelos" Uma bela fritada! Garanto-vos!
E aos filhos menores, que não sabiam o que eram cogumelos, explicou animado a beleza das muitas espécies, a delicadeza do sabor e como se devia cozinhá-los; e envolveu a discussão também a mulher, Domitilla, que se mostrava incrédula e distraída. - E onde estão esses cogumelos? - perguntaram as crianças - Diga-nos onde estão crescendo!
Diante de tal pergunta, o entusiasmo de Marcovaldo foi refreado por uma suspeita:" Se lhes disser onde estão, vão procurá-los com um dos costumeiros bandos de moleques, corre a notícia pelo bairro, e os cogumelos terminam na panela dos outros!" Assim, aquela descoberta que lhe enchera o coração de amor universal, agora lhe acendia a obsessão da posse, cercava-o de temor ciumento e desconfiado.
- Eu é que sei o lugar dos cogumelos e só eu - disse aos filhos -, e ai de vocês se abrirem o bico.
Na manhã seguinte, Marcovaldo, aproximando-se da parada do bonde estava bastante apreensivo. Inclinou-se sobre o canteiro e viu com alívio os cogumelos um pouco mais crescidinhos, ainda quase totalmente ocultos pela terra. Estava assim inclinado, quando percebeu que havia alguém atrás dele. Levantou-se de um salto e tentou simular uma expressão indiferente. Um varredor de ruas observava-o, apoiado na vassoura.
Esse varredor, em cuja jurisdição se achavam os cogumelos, era um jovem magricela que usava óculos grandes. Chamava-se Amadigi, e Marcovaldo tinha antipatia por ele havia muito tempo, quem sabe por causa daqueles óculos que perscrutavam o asfalto das ruas em busca de qualquer vestígio natural a ser eliminado a golpes de vassoura.
Era sábado; e Marcovaldo passou a parte do dia dando voltas com ar distraído perto do canteiro, controlando de longe o varredor e os cogumelos, e calculando quanto tempos seria necessário para que crescessem.
Choveu à noite: como os camponeses que, depois de meses de seca, acordam e pulam de alegria ao rumor das primeiras gotas, Marcovaldo, o único em toda a cidade, sentou-se na cama, chamou a família.
- Chove, chove! - e respirou o cheiro de poeira molhada e mofo fresco que vinha da rua. Ao amanhecer - era domingo - , com as crianças e um cesto emprestado, saiu correndo para o canteiro. Os cogumelos estavam lá, empinados em seus talos, com os chapéus altos sobre a terra ainda encharcada. " Viva!", e começaram a colhê-los.
- Papá! Vê aquele senhor ali, quantos ele apanhou! - disse Michelino, e o pai, erguendo a cabeça, viu, em pé ao lado deles, Amadigi também com um cesto cheio de cogumelos debaixo do braço.
- Ah, vocês também estão colhendo? - disse o varredor. - Quer dizer que são bons para comer? Apanhei um pouco, mas não sabia se podia confiar... Na avenida, ali à frente, nasceram maiores ainda... Bem, agora que já sei, aviso os meus parentes que estão lá discutindo se convém colhê-los ou deixá-los... - e afastou-se com largas passadas.
Marcovaldo perdeu a fala: cogumelos ainda maiores, que ele não reparara, uma colheita inesperada, que lhe era arrancada assim sem mais nem menos, debaixo do seu nariz. Permaneceu um momento quase petrificado pela raiva, pela fúria, depois - como às vezes acontece - o refreamento daquelas paixões individuais transformou-se num impulso generoso. Àquela hora, muita gente estava esperando o bonde, com o guarda chuva pendurado no braço, pois o tempo continuava húmido e incerto.
- Ei, vocês aí! Querem preparar uma fritada de cogumelos hoje à noite? - gritou Marcovaldo ao grupo que se amontoava na parada. - Cresceram cogumelos aqui na rua! Venham comigo! Tem para toda a gente! - E saiu na cola de Amadigi, seguido por uma comitiva.
Ainda encontraram cogumelos para todos e, na falta de cestos, usaram os guarda-chuvas abertos. Alguém comentou: "Seria bom almoçarmos todos juntos!" Mas cada um pegou a sua parte e foi para casa.
Porém não demoraram a reencontrar-se, ou melhor, foi na mesma noite, no mesmo setor do hospital, depois da lavagem estomacal que os salvou do envenenamento: nada de grave, porque a quantidade de cogumelos que cada um ingeriu foi bem pouca.
Marcovaldo e Amadigi estavam em camas vizinhas e se olharam enviesado.




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